Ritinha danadinha, de Pedro Bandeira

4 09 2008

1- Ritinha substantiva feminina

Sabe? Esse negócio de falar bem é como aprender a tocar piano ou aprender a nadar ou a andar de bicicleta. É preciso muita prática. Por isso é que a Ritinha já tinha aprendido a falar muito bem. Porque ela praticava o tempo todo. Praticava tanto que, muitas vezes, a mãe tinha de sugerir:
– Ritinha, vá brincar, por favor.
É claro, que mesmo praticando muito, a menina ainda fazia algumas confusões. Só que, pensando bem, nem dá para dizer quem está com a razão: a língua portuguesa ou a Ritinha.
Foi mais ou menos o que aconteceu naquela tarde, quando a campainha tocou: dlim-dlom!
A mãe estava no banho e Ritinha foi atender.
– Bom dia! – cumprimentou um homem sorridente, de malinha na mão.
– Boa dia! – respondeu a Ritinha.
O homem achou graça, puxou um pigarro, sorriu meio sem jeito.
– Sua mãe está, menina?
– Está, mas está tomanda banha.
– Hein: “Tomando banho”, você quer dizer, não é?
– Não. “Tomando banho” se fosse meu pai. Mas meu pai não está tomando banho. Está no escritório. Quem está tomanda banha é a mamãe.
O homem puxou outro pigarro, sorriu de novo, ainda “sem jeitíssimo”.
– Ora, menina, eu estava dizendo…
– Não. O senhor é homem. Por isso, o senhor estavo dizendo. Quem estava dizenda era eu, que sou menina. E eu estava dizenda que a mamãe está tomanda banha.
O homem não agüentava mais de tanto pigarrear, sem saber como continuar a conversa.
– Menina, olhe… não é assim que se fala. Tem palavras que não são nem masculinas nem femininas…
– Sei. Tem palavros masculinos e palavras femininas. Assim como tem homem e mulher, menino e menina, gato e gata.
– Mas…
A conversa continuou por aí afora, cada vez mais animada, entre Ritinha e o homem de malinha na mão.
A mãe de Ritinha demorou no banho. Demorou mas acabou saindo e foi encontrar a filha e o visitante conversando e rindo a valer.
– Bom dia, meu senhor… – cumprimentou a mãe.
O homem levantou-se animadamente:
– Bom dio, minha senhora. Ou boa dia! Eu estavo conversando aqui com a sua filha, enquanto esperavo a senhora acabar a sua banha…
– O quê?! – zangou-se a mãe. – A minha banha!? O senhor está me chamando de gorda?
– Eu? Eu não, minha senhora. A senhora até que é magrinha… Eu só querio saber se a senhora gostaria de comprar alguns dos nossos produtos…
– Produtos? Que produtos?
– Produtos ótimos para emagrecer. Eu…
– Seu malcriado! Eu não quero comprar nada! Ainda mais de um vendedor sem educação como o senhor. Faça o favor de sair!
O homem saiu o mais rápido que pôde, sem nem pigarrear.
A mãe estava furiosa:
– Que vendedor mais malcriado, não é Ritinha? Nem sabe falar direito!
– Você não devia ter brigada com ele, mãe. Eu até que estava ensinanda tudinho pra ele. E ele já estavo quase aprendendo…
Assim era a Ritinha e esse era o jeito que ela falava. Um jeito tão sem jeito que só causava confusão. Confusão como aquela, no dia em que Ritinha estava de burro amarrado…


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2 responses

28 04 2010
blanco

muito interessante este texto, pois retrata como as crianças de séries iniciais tem dificuldades com relação aos estudos dos gêneros…

28 04 2010
profcatia

Não sei se são elas que têm dificuldades ou nós que complicamos. …hehehe…
Contou-me uma amiga, um dia desses, que ela havia acabado de limpar a casa, o sobrinho chegou da escola com os pés sujos e foi entrando direto. Então ela disse:
– Vocês não têm consideração por mim, eu me esforço muito, tenham dó , também sou um ser humano.
Ele respondeu:
– Não, tia, você é uma “sera humana”.
…Hehehe…

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