Barba Ruiva

4 09 2010

          Aqui está a lagoa de Paranaguá, limpa como um espelho e bonita como noiva enfeitada.

          Espraia-se em quinze quilometros por cinco de largura, mas não era, tempo antigo, assim tão grande, poderosa como um braço do mar. Cresceu por encanto, cobrindo mato e caminho, por causa do pecado dos homens.

          Nas Salinas, ponta leste do povoado do Paranaguá, vivia uma viúva com três filhas. O rio Fundo caía numa lagoa pequena no méio da várzea.

          Um dia, não se sabe como, a mais moça das filhas da víuva adoeceu e ninguém atinava com a moléstia. Ficou triste e pensativa.

          Estava esperando menino e o namorado morrera, sem ter ocasião de levar a moça ao altar.

          Chegando o tempo, descansou a moça nos matos e, querendo esconder a vergonha, deitou o filhinho num tacho de cobre e sacudiu-o dentro da lagoa.

          O tacho desceu e subiu logo, trazido por uma Mãe-d’água, tremendo de raiva na sua beleza feiticeira. Amaldiçoou a moça que chorava e mergulhou.

          As águas foram crescendo, subindo e correndo, numa enchente sem fim, dia e noite, alagando , encharcando, atolando, aumentando sem cessar, cumprindo uma ordem misteriosa. Tomou toda a várzea, passando por cima das carnaubeiras e buritis, dando onda como maré de enchente na lua.

          Ficou a lagoa encantada, cheia de luzes e de vozes. Ninguém podia morar na beira porque, a noite inteira, subia do fundo d’água um choro de criança, como se chamasse a mãe para amamentar.

          Ano vai e ano vem, o choro parou e, vez por outra, aparecia um homem moço, airoso, muito claro, menino de manhã, com barbas ruivas ao meio-dia e barbado de branco ao anoitecer.

          Muita gente o viu e tem visto. Foge dos homens e procura as mulheres que vão bater roupas. Agarra-as só para abraçar e beijar. Depois, corre e pula na lagoa, desaparecendo.

          Nenhuma mulher bate roupa e toma banho sozinha, com medo do Barba Ruiva. Homem de respeito, doutor formato tem encontrado o Filho-da-Mãe d’água, e perde o uso de razão, horas e horas.

          Mas o Barba Ruiva não ofende a ninguém. Corre a sua sina nas águas da lagoa de Paranaguá, perseguindo mulheres e fugindo dos homens.

          Um dia desencantará. Se uma mulher atirar na cabeça dele água benta e um rosário indulgenciado. Barba Ruiva é pagão e deixa de de ser encantado sendo cristão.

          Mas não nasceu ainda essa mulher valente para desencantar o Barba Ruiva.

          Por isso ele cumpre sua sina nas águas claras da lagoa de Paranaguá.

 

(Câmara Cascudo, Lendas Brasileiras, Editora Ediouro, 4ª Edição)


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